domingo, 18 de fevereiro de 2018

Pássaro



Li outro dia enquanto passava por uma livraria de rodoviária, que até mesmo os pássaros precisam pousar na terra. Sim! mas, quem tem asas sabe que o impulso da vida é pelo voo. Os pés e as asas estão no vento! essa é a diferença de nós para o pássaro..
Conheci um pássaro!
De vez em quando ele coloca os pés na terra e foi em um desses momentos que o encontrei!
Na realidade, ainda quando pousa, o pássaro se mantém no voo. Seu corpo foi feito para isso... ele está no voo, mesmo no chão!
Não se apegue a um pássaro! a não ser que você seja uma gaiola e queira esse destino para ele!
Um pássaro não merece uma gaiola. Nasceu para o voo e o vento é o seu norte!
Engaiolar um pássaro é obrigá-lo a um canto apenas para si! interno!
Não prive o pássaro de cantar para o universo! ame-o! mas pelo que ele é: livre!

Instantes!

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Memórias e um palpitar de um coração desejoso por mudanças!
Não dessas mudanças rasas, mas daquelas que perfuram a carne e chegam à alma.
Mudanças capazes de permitir acessar um mundo ainda sem forma, mas que espera para ser criado!
Instantes! pessoas passam, marcas ficam. Há apenas uma cicatriz profunda!
Não sangra mais!!
Porém, seu desenho não é possível decifrar nem a dor de sua causa possível descrever.
Não pergunte por ela. Siga como se o grifo não se mexesse...
Afora essa cicatriz tudo é só um instante!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

um tempo



Inverso desse tempo!
Um sentimento profundo
Não houve salvação!
Lá estava presa a m'inha alma!
Nua, despida! na imensidão da floresta...
Eu não o vi quando chegou...
ao me virar já estava la!
preso e torturado pelo tempo
sem sentir nada...
Não nos vimos! apenas desejamos...
o toque foi tão profundo...
mas eu pude senti-lo!
partiu sem deixar rastro
apenas uma percepção de que houve
um tempo fora desse tempo...

terça-feira, 20 de junho de 2017

Apenas eu



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Essa solidão que é tal como a passagem do dia para a noite paira sobre o meu espírito.
Não posso evitar. É impossível fugir porque não há como escapar de mim!
É o que eu sou!
Tornei-me uma criatura quebrada, sombria, mas que ainda consegue emitir uma estranha luz capaz de atrair os seres vivos e mortos.
Não sou bonita.
Não há nada de especial em mim.
Apenas sinto os mundos e os conheço desde sempre!
Não gosto do que faço, nem de onde vivo ou viverei, justamente por não pertencer a nenhum desses mundos...
Talvez eu não tenha conseguido distinguir um mundo do outro e é por isso que não tenho lugar!
Todos me querem, mas ninguém me ama ou se importa!
Não há paz para mim nem em meus sonhos.
Meu coração está imerso em dor e amor.
Onde já se viu essas duas dádivas juntas?
Aqui são como um casal prometido.
Amo o que nunca terei e o que tive já se foi...
Serei para sempre perseguida por essa solidão, minha amiga de muitas eras...
Existem pessoas que foram destinadas a vagarem sem par, sem razão ou qualquer outro sentimento companheiro...
Exitem pessoas que foram feitas para não serem tocadas, amadas, mas profundamente desejadas!
Preciso deixar aqui algumas coisas para poder seguir só.
E me perder ou quem sabe encontrar em mim se o que sinto ou sou!
Apenas eu enfim...

domingo, 19 de março de 2017


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Não há como parar o curso da natureza... O ciclo da vida!
Há dias em que pessoas chegam e no outro partem! É a adaptação ao estado das coisas que nós próprios criamos.
Mas eu gostaria de falar daquelas pessoas, das quais gostamos; amigos, irmãos, amores que partem sem motivo aparente...
Liquidez, como diria Bauman! Um dia a gente aprende! No entanto, eu não quero aprender...
Eu prefiro ir ao fundo, até o fim, por mais que isso seja um poder construído com um certo grau de sofrimento...
A amizade é dádiva! É partilhar o seu coração com pessoas que surgem trazendo novas cores à vida, sentido, possibilidades...
Essas coisas, quando sinceras, permanecem além do tempo, da distância... E é nessa caminhada que descobrimos na amizade, o valor da vida.  Descobrimos ainda que, os erros cometidos ao longo do caminho, não significam a troca de amigos, mas que muitos outros podem se achegar e que os mais antigos, são sempre os mais antigos... rs...
Mudamos o tempo todo.  Como seres em processo, nunca estamos no mesmo lugar. Porém, isso não significa que não caibamos mais na vida de um amigo, a não ser que isso seja a sua escolha, porque sempre há mais espaço para um velho ou um novo amigo... O bom é saber que há sempre um novo começo, mas é preciso reconhecer quando uma etapa chega ao final, pois são raras as probabilidades de uma amizade genuína durante a nossa efêmera existência...


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

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Mergulhada na fantasia do ser fui dando asas ao meu mundo interior, tão alheio à vida!
 lembranças ainda mornas da última vez que vi o tempo como seixos rolando no rio...
Sob aquele olhar tímido e penetrante deixei-me conduzir por águas turvas.
Não foi certo esperar os ventos do norte... eles são incapazes!
A natureza está ausente daquele sentimento.
Por hoje é a partida que constrói a dimensão do ser!
Permanecer imóvel...
Quem dera fosse possível olhar mais uma vez na mesma direção de outrora!!!
Quem dera fosse meu...
Aquele tempo!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Palavras



Te escreveria todas as canções...


Em princípio as palavras são como grãos de poeiras lançadas ao vento forte em direção à montanha.
Mas, como partículas de pó, palavras possibilitam uma diversidade de entendimentos, transformados, assimilados, contestados. Não há como dizer com palavras aquilo que realmente se quer dizer!
Por isso, falar vai muito além...
Não quero dizer nada com o que escrevo, pois estou apenas expressando um pouco do que compreendo nesse momento. Há na vida diversas formas de viver, assim como há nas palavras diversas maneiras de dizê-las.  Uma montanha é indestrutível porque se transforma, sedimentando um pouco a cada dia até que a sua atual forma desapareça.
A vida é como uma montanha, no entanto, indestrutíveis devem ser as nossas formas de vivê-la!
Há que escolher um caminho! Eu, escolho o simples, o descomplicado, o amor e todas as suas diversidades.
Eu escolho o movimento, a transformação e a partilha.
Eu escolho a vida que no final, poderei levar...

Fronteira Chile/Argentina. Janeiro de 2017

Sobre ir

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"o passado é uma roupa que não nos cabe mais!"
belas palavras! uma poesia sussurrada à alma daquelas pessoas que carregam no coração o desejo de mudar...
É sempre tempo de ir, de deixar o passado ser o que ele é: experiência! É no caminhar que está a descoberta, a transformação, o novo.
Quando reconheço que algo não me cabe mais, estou caminhando em terrenos do passado. E aí, é hora de saber ir...
Conosco carregamos experiências vividas, as que nos faz sermos quem de fato somos! sem máscaras, sem prisões, sem estereótipos.
A vida está no que ainda há de vir e isso é o sentido da existência! portanto, vá, pois do outro lado, algo te espera sem cessar!


Escrito em um ônibus em uma fronteira desse mundo.
RFO.

domingo, 26 de junho de 2016




Ela atravessou o cair da madrugada fresca naqueles dias de horas vazias...
Uma imensidão do nada. Passos pequenos e vontades intermináveis.
No corpo, uma pulsação de pecados envenenando o sangue...
As tardes eram como algodões, mortalmente macias, sem jeito...
Ajeitava-se como podia naquela horda de sentimentos ainda vivos...
Na casa, não se podia vê-la em espaço algum, mas estava lá!
Sombria e intensa como são todas as criaturas misteriosas que transitam entre os mundos...
Andava por um caminho tão desconhecido...
Estava terrivelmente viva, até o fim!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Chove



A chuva está no horizonte

É hora de voltar para casa...

Você houve o que eu digo?

A chuva chegou...

Voltaremos para casa...

Nossa casa de esperanças...

Busque as crianças

A chuva está a caminho

Vamos voltar para casa...

Hoje poderemos tocar o céu...

A terra estará molhada...

Pegue o seu coração despedaçado

Voltemos para casa...!

sábado, 23 de abril de 2016

Uma vez mais...


Contemplai ó minh’ alma o anoitecer!
Creia que amanhã haverá crepúsculos novos...
Um dançar das cores irá desfilar em minha janela...
Uma vez mais...
Por que vens ó noite, obscura?
Minha razão inebriada ansiou por seu toque profundo e vazio.
E eu me empenho em deitar o meu espírito numa dança sombria...
Uma vez mais...
Rezei ao flagelo impresso nos caminhos densos...
Enquanto o calor se esvai...
E o meu coração, uma ave esvoaçada...
Livremente plana...
 uma vez mais!




quarta-feira, 20 de maio de 2015

Parca Poesia



Uma chuva que cai
Um peito que rasga.
Um amor que se esvai..
Numa noite fria, nada além daquela parca poesia...
Pouca coisa restou...
 apenas um gole de conhaque em uma garrafa velha...
Teias de aranha pela casa, assentos empoeirados.
E um livro...
Nele, apenas uma parca poesia...
Nesse instante somente essa companhia.
Ler aquela pequena e rasa poesia.
E despertar a incrível habilidade de criar...
Criei fantasmas, monstros e príncipes...
reinos, castelos, cidades e campos...
Criei deuses...
E dei adeus...
Tudo se foi...

sábado, 4 de abril de 2015

Recomeço





Hoje eu procurei aquele sentimento que me apertava o peito...
Tentei encontrar a angústia de amar-te e esperar-te...
Eu queria sentir mais uma vez aquela dor da ausência,
Mas não a encontrei...
Fiquei pensando em quais memórias tuas permaneceriam vivas...
Se a de beijos, se a de lágrimas...
Se.... se nenhuma...
Pela janela eu vi se desfazer a imagem tua
Que compus com notas de vontade...
Permaneceu aqui o meu espírito inspirador
E me restou tomar o meu café.
 

domingo, 6 de abril de 2014

Algumas buscas são eternas...


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Gênio do Mal







Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.
Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natureza-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um gênio formar?
Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.



Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"


domingo, 17 de novembro de 2013

Se eu soubesse desenhar



Desenharia os traços de uma face iluminada pela luz da lua em uma noite primaveril....
Capturaria nas minhas telas, o cintilar de um mundo existente entre olhos e bocas...
Desenharia uma alcova primitiva habitada por uma fera que quando beijada, tornava-se ainda mais mística!
Se eu soubesse desenhar...
Construiria com meus lápis em muitas cores
Aquelas montanhas feitas a partir de teus dedos
Quando deslizam sobre o que é encantado...
Quando tocam a harpa dos anjos e rouba os símbolos secretos...
Se eu fosse Leonardo Da Vinci, Van Gogh ou Renoir,
Desenharia o teu nome nas telas da eternidade...
Pintaria o teu rosto com o sangue de um coração que te ama desde a época dos deuses antigos...
Se eu soubesse desenhar...
Dar-te-ia a forma dos meus sonhos
Em meio à penumbra de uma habitação estranha
Cuja luz que resplandece é a de teus olhos em meio ao luar
Guiando os cegos do fundo da noite...
Se eu soubesse desenhar...
Desenharia uma poesia que ganharia vida com o sol
E cantaria para ti as verdadeiras histórias da humanidade...
Até o fim dos rabiscos da vida
Desenhadas aqui com um lápis sem borracha....

Se eu soubesse desenhar....

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Mosaico




Pedacinhos de gente
espalhados por esta sala
café, livros e muitos pensamentos
veem na direção dos meus olhos...
sinto-me compondo a sinfonia da vida
em cada pedacinho deixado por onde andei...
Não desejo juntá-los,
para nunca descobrir o que fui
ou o que vou ser...
Pedacinhos de gente em mim...
regados pelos pingos de chuva
ou de suor...
Pedacinhos perdidos por aí
que poderão compor o mosaico
para ornamentar a casa que habita o amor...

Reflexos






Reflexos...

de um mundo oculto
habitado pelo sol
inspirado nos raios de sorrisos humanos...
espelhos reais...
encantados no meu quarto
quando traduzem o que sou
ou finjo ser!
Reflexos de mim...
de ti...
de pessoas nuas...
desprovidas de si
quando renovam suas imagens
para mirarem-se belas
e buscar seus falsos semblantes
encobertos pelas meias verdades...
ditas nos reflexos...
reflexos de mim...
de tempos idos...
daquelas pedras
ao comporem as ladeiras
que emolduram a minha alma...
reflexos...
eu não sei o que dizem agora!!!


domingo, 10 de novembro de 2013

O Corvo

Uma homenagem a quem tanto me inspira...





      O CORVO
      (de Edgar Allan Poe)


    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.


    É só isto, e nada mais."

    Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais!

    Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isto, e nada mais".

    E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
    Noite, noite e nada mais.

    A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
    Isso só e nada mais.

    Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
    "É o vento, e nada mais."

    Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
    Foi, pousou, e nada mais.

    E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
    Com o nome "Nunca mais".

    Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
    Era este "Nunca mais".

    Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
    Com aquele "Nunca mais".

    Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
    Reclinar-se-á nunca mais!

    Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
    Libertar-se-á... nunca mais!

    Fernando Pessoa
    Traduzido de The Raven, de Edgard Allan Poe, ritmicamente conforme com o original.