quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Casa de Taipa


Nos meus tempos de meninota, a pequena casa em que vivia acolhia a vida com um doce fascínio.
Uma casinha de taipa herdada de meu avô foi a minha moradia, até que o tempo a dissipou.
O cenário era intrigante, pintava no sertão o quadro mais belo que meus olhos puderam contemplar.
A casa de taipa era como um castelo de sonhos, que despertava a imaginação de uma menina brincalhona, que acreditava ser aquele lugar um reino encantado.
Suas janelas foram passagens para o horizonte por detrás da serra. Lá onde o bem-te-vi cantava as proezas daquela terra.
Pela manhã, eu avistava a barriguda florida. Mágica a barriguda se tornava quando chegava o por do sol.

À notinha, pelas frestas das paredes, o brilho da lua enchia o lugar de festa e esplendor, levando dali todo o cansaço e a dor do dia.
A cor avermelhada das paredes feitas pelas mãos de meu avô lembrava a terra que ali criou vida.
A passagem do tempo fez a dor chegar, quando tivemos que nos retirar daquelas terras, em busca de sonhos que diziam estar em outro lugar.
O aconchego da casa de taipa, nunca mais pude ter. Tiraram-na de mim, e eu nem soube o porquê.
Agora que cresci, volto a olhar aquele belo cenário que havia no meu lugar. No meu sertão profundo, cheio de poesia e magia, ainda hoje, nos meus sonhos, repleto de alegria.
A casa de taipa tornou-se apenas uma lembrança daquele meu tempo de criança. Mas a barriguda, resistência criou, raízes ali fincou, mostrando-me que o tempo nada apagou e que, na verdade, minha casinha de taipa, novamente, terra se tornou.




Renata Ferreira de Oliveira (inverno de 2008)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ser o sertão...


Estou sempre sendo impulsionada a retornar ao sertão. É incrível como as raízes são tão profundas. Como as marcas são tão vivas. Desde muito pequena, convivia com as imagens de um cenário belo e singular: o sertão. Não o sertão de Euclides da Cunha desprovido de gente verdadeiramente sertaneja, mas o sertão de gente que mantém toda uma tradição viva.
Agora, retorno para entender como a feminilidade sertaneja permite toda a continuação de comunidades resistentes. Muitas, matriarcas, formadas a partir de uma avó pega no mato a "dente de cachorro" ou seja, a avó índia e outras tantas mulheres fortes, as parteiras, por exemplo. Quantas ajudaram na passagem das crianças. No sertão, são as mulheres as responsáveis por guardar a tradição das rezas, dos sambas para os santos, das festas juninas, das quermesses.
São elas também, responsáveis por manter a unidade familiar. Enquanto seus maridos saem em busca de trabalho pelo mundo a fora. São as mulheres que cuidam do lar, da casa, dos animais, de buscar a água na cabeça, de fazer penitências para a chuva chegar.
São elas as mais agredidas pelo clima, pois dependem inteiramente da água para o desenvolvimento de sua família.
Mas são tão diversas, distintas, sonhadoras, desejosas de coisas novas, de renovar o saber...
Por isso, há dois anos quando escrevi meu poema "Sertão, tão ser" dedique alguns versos a essas guerreiras sertanejas.

" Sertão de janelas abertas, de moças a esperar,
Que o amor venha despertar seus corações...
Sertão, tão ser.
Ser a beleza iluminada com jeito de menina
Que no sertão é a fina essência feminina
Sertão, tão Ser!!"

Discurso


Quando falei por mim e meus colegas...

COMO É BOM CELEBRAR A HISTÓRIA. MELHOR AINDA, É FAZER PARTE DA CONSTRUÇÃO DESSA HISTÓRIA. E HOJE, QUERIDOS AMIGOS, NOS JUNTAMOS AQUI PARA FORMARMOS O GRANDE ELO DA HISTÓRIA. ESSE ELO É A NOSSA AMIZADE. MAS... POR QUE HISTÓRIA? QUANTOS DE NÓS ESCUTAMOS E FIZEMOS ESSA PERGUNTA... POR QUE HISTÓRIA? SERIA APENAS PELA LEMBRANÇA DO PASSADO? NÓS, OS HISTORIADORES, SOMOS CONFUNDIDOS CONSTANTEMENTE COM O PASSADO. A NÓS, FOI DECRETADO QUE TEMOS DE DESVENDÁ-LO MAS, O QUE É O PASSADO PARA A HISTÓRIA? HOBSBAWM AFIRMOU QUE TODOS OS HUMANOS TÊM CONSCIÊNCIA DE SEU PASSADO E OS HISTORIADORES SÃO O BANCO QUE ASSENTA A MEMÓRIA DESSES TEMPOS IDOS. MAS NÃO É SOMENTE A NÓS QUE CABE O ESTUDO DO PASSADO OU DA SUA DIMENSÃO. AO PENSARMOS NOS QUATRO ANOS DE CURSO OU NO NOSSO TEMPO DE VIDA... OU MESMO NO TEMPO DE VIDA DE NOSSOS PAIS, CELEBRAMOS UM MARCO CRONOLÓGICO. AÍ, NECESSITAMOS DA HISTÓRIA PARA ISSO. MESMO QUANDO NÃO SABEMOS O PORQUÊ, ESTAMOS TRABALHANDO A HISTÓRIA. O IMPULSO EM DESVENDAR OS FATOS NOS CONDUZIU À CONSTRUÇÃO DO NOSSO CONHECIMENTO SOBRE A HISTÓRIA. FORAM QUATRO ANOS PARA QUE CHEGÁSSEMOS ATÉ AQUI, NESSA NOITE. ESSE TEMPO, MARCADO POR UMA DIVERSIDADE DE FATOS, NOS FEZ HOMENS E MULHERES DA HISTÓRIA. SOMOS HOJE APENAS PARTE DO QUE FOMOS HÁ QUATRO ANOS. NOSSA VIDA SE MODIFICOU, POIS NÃO SÓ ADQUIRIMOS CONHECIMENTO TEÓRICO, MAS TAMBÉM CONHECIMENTO SOBRE A HUMANIDADE. E COM AS PREMISSAS DE HISTORIADORES CONSAGRADOS, COMO MARC BLOCH, SEGUIMOS A NOSSA JORNADA SABENDO QUE “O OBJETO DA HISTÓRIA É, POR NATUREZA, O HOMEM”. SÃO OS HUMANOS QUE A HISTÓRIA QUER CAPTURAR . QUEM NÃO CONSEGUIR ISSO, DISSE BLOC, SERÁ APENAS, NO MÁXIMO, UM SERVIÇAL DA CIÊNCIA. NO COTIDIANO DO CURSO, QUANTOS HUMANOS DESCOBRIMOS NA SALA DE AULA... NÃO SOMENTE AQUELES GRANDES FEITORES DA HISTÓRIA, MAS OS QUE SENTAVAM AO NOSSO LADO. QUANTAS FACES ENXERGAMOS NOS NOSSOS COLEGAS, QUE SE TORNARAM TAMBÉM NOSSOS AMIGOS, NOSSOS COMPANHEIROS... QUANTAS FACES ENXERGAMOS NOS PROFESSORES, QUANDO SABIAMENTE NOS CONDUZIAM PELOS CAMINHOS DO CONHECIMENTO... COMO APRENDEMOS A NOS TORNAR MAIS HUMANOS, GRAÇAS A VOCÊS: PROFESSORES! VOCÊS QUE NOS AJUDARAM NÃO SOMENTE A CRESCER INTELECTUALMENTE, MAS TAMBÉM PELA FORÇA DA AMIZADE, A SERMOS HOMENS E MULHERES MELHORES! RECLAMAMOS? SIM, E COMO RECLAMAMOS... POIS A JORNADA FOI LONGA... PARA ALGUNS, MAIOR AINDA, POIS CONTINUAM NELA. E AO LONGO DESSE TRAJETO, PASSAMOS POR MUITAS PROVAÇÕES E CONQUISTAS. CRUZAMOS OS LAMPEJOS DA ANTIGUIDADE ACOMPANHADOS DE UMA BOA TAÇA DE VINHO; DESBRAVAMOS AS RUAS DA GRÉCIA E ROMA, VIAJAMOS COM ODISSEU. PENETRAMOS AS FLORESTAS DOS CASTELOS MEDIEVAIS. ADENTRAMOS O INFERNO DE DANTE. FOMOS À ÁFRICA, TENTAMOS ENCONTRAR A NASCENTE DO NILO. VOLTAMOS AO BRASIL CONTEMPORÂNEO, DE CAIO PRADO; VISITAMOS AS CIVILIZAÇÕES AMERICANAS, PARTICIPAMOS DAS INDEPENDÊNCIAS NA AMÉRICA LATINA, ENTENDEMOS OS MOVIMENTOS SOCIAIS, CONHECEMOS LAMPIÃO, SEM NOS ESQUECER DAS ATIVIDADES COMPLEMENTARES. PERCORREMOS O PERÍODO CONTEMPORÂNEO, ORQUESTRADOS PELAS ERAS DE HOBSBAWM. CULTIVAMOS E CONFRONTAMOS O TRADICIONALISMO COM A REALIDADE, DESVENCILHANDO O REAL DO IMAGINÁRIO, CONHECENDO AS PRIMAZIAS DAS REVOLUÇÕES. E, AINDA, MONTAMOS NOSSOS PLANOS DE AULAS, RECHEADOS DESSE CONHECIMENTO. CONHECIMENTO ESSE QUE NÃO SE ESGOTOU, MAS PERDURA. ESSA É A RAZÃO PELA QUAL PROSSEGUIREMOS NOSSA JORNADA EM BUSCA DO PRAZER DE CONHECER. CONHECIMENTO ESSE QUE NORTEOU A SALA DE AULA, ALIMENTADO PELO QUESTIONAMENTO. QUESTIONAMOS. E COMO QUESTIONAMOS... AS DÚVIDAS NÃO TINHAM MOMENTO PARA SURGIR. COMO ERA BOM! ÀS DEZ E VINTE E CINCO DA NOITE DE SEXTA, PRONTOS PARA IRMOS DESTINO AFORA, ELAS SALTAVAM... E SALTAVAM COM TAMANHA VEEMÊNCIA QUE ATÉ ESQUECÍAMOS QUE O ÔNIBUS PARTIRIA EM 5 MINUTOS. FICÁVAMOS RAIVOSOS, CURIOSOS, SORRIDENTES... FICÁVAMOS FELIZES... ÓH!!! QUANTAS METAMORFOSES KAFKIANAS ATRAVESSAMOS... QUANTOS RÓTULOS RECEBEMOS... E POR ISSO EU INSISTO... POR QUE HISTÓRIA? FOMOS CONVOCADOS A DESVENDAR AS PÁGINAS DO PASSADO, PARA ENTENDERMOS O PRESENTE E PENSARMOS O FUTURO, DE FORMA QUE PUDÉSSEMOS COMPREENDER A LIBERDADE DO HOMEM. O HOMEM É LIVRE... ÉRAMOS LIVRES QUANDO ENTRAMOS PARA O CURSO, SOMOS MAIS LIVRES AGORA... PARAFRASEANDO DOSTOIEVSKI, EU DIGO QUE: EM PRIMEIRO LUGAR, LIVRES... LIVRES QUANDO QUISEMOS ESTA VIDA; EM SEGUNDO LUGAR, LIVRES PELO FATO DE PODERMOS ESCOLHER O CAMINHO DESTA VIDA E A MANEIRA DE O PERCORRER;
EM TERCEIRO LUGAR, LIVRES PELO FATO DE, NA QUALIDADE DAQUELES QUE SOMOS, VOLTAR A SERMOS DE NOVO UM DIA, TER A VONTADE DE NOS DEIXARMOS IR, CUSTE O QUE CUSTAR, ATRAVÉS DA VIDA, E DE CHEGAR, ASSIM, AO NOSSO PRÓPRIO DESTINO. E ISSO POR UM CAMINHO QUE PODEMOS, SEM DÚVIDAS, ESCOLHER, MAS QUE, EM TODO O CASO, POR MEIO DA HISTÓRIA QUE CONSTRUÍMOS JUNTOS, FORMA UM LABIRINTO QUE NOS UNE E QUE NOS TOCA NOS MENORES RECANTOS DESTA VIDA.
COLEGAS FORMANDOS... FOI CONTRA VÁRIAS ADVERSIDADES QUE CHEGAMOS ATÉ ESSE DIA. A LUTA FOI ÁRDUA E SOMENTE POR MEIO DA UNIÃO DA “FALANGE”, SOMOS HOJE VITORIOSOS. ESTAMOS AQUI, TAMBÉM, REPRESENTANDO OS QUE, POR DIVERSAS RAZÕES, FICARAM PELO CAMINHO. MAS QUE DEIXARAM SUAS MARCAS EM NOSSAS VIDAS. POR ISSO... NÃO SOMOS MAIS OS MESMOS... SOMOS HOJE MAIS COMPLETOS, MAIS HUMANOS E, COM CERTEZA, LEVAREMOS EM NOSSAS VIDAS ESSAS EXPERIÊNCIAS QUE NOS TORNARAM PESSOAS MELHORES... É POR ESSA RAZÃO QUE HOJE, TAMBÉM LEMBRAMOS AQUELES QUE FICARAM ALÉM DOS MUROS DESSA UNIVERSIDADE, AO SE ESBARRAREM NA PAREDE DO VESTIBULAR. MAS QUE DESEJARIAM, COM INTENSIDADE, ESTAR AQUI CONOSCO. É... A BATALHA FOI MESMO LONGA... DE QUANTAS COISAS ABRIMOS MÃO PELA LEITURA DOS LIVROS... QUANTOS AMORES DEIXAMOS DE VIVER, PARA PODERMOS ESTUDAR... QUANTAS CONVERSAS DEIXAMOS DE TER COM NOSSOS AMIGOS... QUANTAS AUSÊNCIAS DOS NOSSOS LARES, DO ACONCHEGO DO COLO DE NOSSOS PAIS... E QUANTAS VEZES FICAMOS SEM DORMIR... OU DORMIMOS SOBRE OS LIVROS... QUANTO CONHECIMENTO PARA APREENDER, DEGUSTAR E ELABORAR!!! E A QUEM PERTENCE ESSE CONHECIMENTO? NO PRIMEIRO MOMENTO, ÉRAMOS CONVICTOS DE QUE ESSE SABER PERTENCIA A VOCÊS, PROFESSORES. HAVIA UM HIATO DE CONHECIMENTO QUE NOS SEPARAVA. MAS FOI POR MEIO DA DEDICAÇÃO AO MINISTRAREM AS AULAS, QUE PUDEMOS CRIAR UMA PONTE, QUE POSSIBILITOU A NOSSA TRAVESSIA PARA, JUNTOS, FORMARMOS UM CONJUNTO DE SERES HUMANOS DEPENDENTES UNS DOS OUTROS, A FIM DE ADQUIRIR O SABER. MESTRES... NOSSOS ESPELHOS... BEBEMOS DO SABER ADQUIRIDO POR VOCÊS AO LONGO DE SUAS JORNADAS... SABÍAMOS QUE, UM DIA, VOCÊS FORAM COMO NÓS. SENTARAM NOS BANCOS DAS UNIVERSIDADES, TIVERAM DIFICULDADES, DÚVIDAS, MAS AS SUPERARAM... POR ISSO: VOCÊS FORAM SEMPRE OS NOSSOS ESPELHOS!!! A VOCÊS MESTRES, SOBRETUDO, AGRADECEMOS O CARINHO, A DISPONIBILIDADE E A RESPONSABILIDADE NA PARTILHA E NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO. MESTRES... MUITO OBRIGADA! E AOS SENHORES, PAIS... QUE FORAM NOSSOS PRIMEIROS MESTRES, NOS ENSINARAM AS PRIMEIRAS PALAVRAS, OS PRIMEIROS PASSOS, CONDUZIRAM-NOS PELO CAMINHO DO BEM, ENSINARAM-NOS A VENCER NOSSOS MEDOS E A ENCONTRAR NOSSO CAMINHO NO MUNDO. QUEREMOS PEDIR PERDÃO PELOS MOMENTOS DE AUSÊNCIA, DE NERVOSISMOS, ANSIEDADES, IMPACIÊNCIA, PORQUE ISSO É PRÓPRIO DE UM ESTUDANTE TENTANDO SE ENCONTRAR NO MUNDO DO CONHECIMENTO. TEMOS A CERTEZA DE QUE SEMPRE FOMOS COMPREENDIDOS POR VOCÊS. POR ISSO, DEDICAMOS A VOCÊS ESSA VITÓRIA. A VOCÊS, PAIS, QUE TANTO AMAMOS: MUITO OBRIGADA! COLEGAS FORMANDOS... NOSSAS VIDAS, NESSA JORNADA, FOI UMA PARTILHA CONSTANTE. NOSSA AMIZADE FOI, DIA A DIA, SE SOLIDIFICANDO. ELA ULTRAPASSOU AS PAREDES DA SALA DE AULA, FOI SE EXTENDENDO NOS ÔNIBUS, NOS BARZINHOS, NAS REUNIÕES EM NOSSAS CASAS, ONDE DIVIDÍAMOS NÃO SOMENTE UMA BEBIDA, MAS TAMBÉM PARTILHÁVAMOS NOSSAS DÚVIDAS, NOSSOS SABERES, CONCEITOS E, SOBRETUDO, NOSSOS SONHOS. A NÓS AGORA, CAROS FORMANDOS, FOI CONFIADA A PARTILHA DO CONHECIMENTO ADQUIRIDO. SOMOS RESPONSÁVEIS PELO DESPERTAR DO SABER NOS EDUCANDOS QUE SERÃO A NÓS CONFIADOS. DEVEMOS DESEMPENHAR EM SALA DE AULA AS FUNÇÕES EDUCACIONAIS CAPAZES DE SUSCITAR NOS NOSSOS ALUNOS UM CONHECIMENTO ADQUIRIDO POR MEIO DA CURIOSIDADE E QUESTIONAMENTOS SOBRE SI E SOBRE SUA SOCIEDADE. PARA QUE CADA ALUNO ENTENDA E QUESTIONE O HOMEM NESSE UNIVERSO. ESSE É O PAPEL DO PROFESSOR DE HISTÓRIA. E VOLTA A PERGUNTA: POR QUE HISTÓRIA? A HISTÓRIA É MESMO À PROVA DO TEMPO? PODEMOS APREENDER O TEMPO? SOMOS MESMO HOMENS E MULHERES DO TEMPO? PODEMOS ATÉ NÃO TER CERTEZA DAS RESPOSTAS. TALVEZ ELAS AINDA ESTEJAM EM CONSTRUÇÃO. MAS O QUE CONFIRMAMOS AQUI HOJE E QUE JÁ FOI CONSTRUÍDO POR NÓS, É A CERTEZA DE QUE PODEMOS SEMPRE RETORNAR NO TEMPO. AOS TEMPOS IDOS, POR MEIO DA MEMÓRIA ETERNAMENTE CULTIVADA. TUDO PASSA... VERDADES, CONCEITOS, SENTIMENTOS. MAS AS LEMBRANÇAS, ESSAS PERMANECEM. E É POR MEIO DELAS QUE RETORNAREMOS SEMPRE AO NOSSO TEMPO. TEMPOS DE JUVENTUDE, TEMPOS DE FACULDADE... ESSE TEMPO AQUI... NOSSO TEMPO! E VOLTO A PERGUNTAR: POR QUE MESMO HISTÓRIA? HISTÓRIA, PORQUE QUERÍAMOS CONHECER O HOMEM. E ASSIM, ACABAMOS CONHECENDO A NÓS MESMOS... HISTÓRIA, PORQUE QUERÍAMOS SABER A ESSÊNCIA DE NOSSAS VIDAS... HISTÓRIA PELO QUE ELA É, E PORQUE ELA PODERIA SER. MAIS QUE ISSO, PELO QUE ACONTECEU, COM O QUE PODE VIR A ACONTECER. NÃO SOMOS DAQUELAS PESSOAS QUE APENAS LÊEM SOBRE O QUE SE PASSOU... NÓS ANALISAMOS, INTERPRETAMOS E INCORPORAMOS, EM NÓS, A PARTE QUE NOS INEBRIA, QUE NOS FAZ SENTIR A VIDA. ASSIM SENDO, HISTÓRIA PORQUE NÃO HAVIA MAIS NADA QUE PUDÉSSEMOS FAZER... PORQUE SENÃO, NÃO SERÍAMOS NÓS!

MUITO OBRIGADA!
RENATA FERREIRA DE OLIVEIRA – (ORADORA)
SETEMBRO DE 2009

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Documentos sobre índios



Estava eu exercendo o meu ofício de historiadora e eis que surgiu diante de mim um documento singular sobre os povos indígenas do Planalto da Conquista. O registro é datado de 1936 o que contrapõe diretamente as narrativas de que os índios dessa região ou foram exterminados ou foram todos aldeados e depois se tornaram mestiços desaparecendo entre a população civil. Pois bem eis que os documentos voltam a dar provas de que essa região é uma das últimas na Bahia, quiçá a última a ter índios ainda habitando as selvas.
De acordo com minha orientadora do mestrado, essa carta ajudou uma índia a encontrar a mãe que na ocasião era uma das crianças mencionadas...
Vamos ao registro.

OS ÍNDIOS CAMACÃS NA SERRA DO COURO D’ANTA (serra localizada na região da atual cidade de Itapetinga)

“ ontem aqui cheguei trazendo de minha fazenda Itaporanga (Zona da Serra Couro D’anta), nove índios Camacans, só que consegui atrahir por meios amistosos, quando se aproximaram de uma roça de meu irmão Agrippino Dutra, no 4 do corrente mez.
Appareceram 10, sendo 4 homens, 3 mulheres e 3 creanças, dos quaes existia um bastante doente e que veio a fallecer no dia 10 deste e que se chamava Ramicoy ou Ramicou.
Os nove que eu trouxe para minha fazenda Liberdade e ontem para aqui chamam-se (os três homens) Cocaes, Nocay e Itay; as mulheres: Uqueluqú, Morrtcoy, e Tirimanim, esta última, é mulher do chefe (Cocaes), e as três meninas: Tiarrv, Copté e Paraguassú. São tipo baixo, cor bronzeada, franzinos, isto é não são museulosos; armados de arco e frecha; essas de três espécies, como sejam: Motó, preaca e choupa ou lança. Estavam todos despidos, e conduziam três cães de caça os quaes acodem pelos nomes de: Copy, Nay e Tucnay e mais, um macaquinho novo e 2 quatisinhos também novos. Typo amável, porém desconfiados, risonhos.
O seu idioma ou o dialecto, nada tem do tupy ou Guarany, a não ser o nome de uma creança (Paraguassú)cujo nome fora dado no Posto Indígena do Colônia, onde em certa ocasião eu passei por lá, encontrei o tal chefe Cocaes. Do dialecto por eles falado, apenas pude colher resumido número de vocábulos, como sejam: Tupá: deos, Querrem: trovão, Tabou: chuva, Itarram: fogo, Inarram: água, Borroy, arco ou frecha, Topá: carne, Bagajnam: galinha, Urrah: pato, Mocurrá: cabeça, Catinancon: homem, Catinancon Sapucay: homem preto, ou simplesmente Nanconsapucay.Bechtió: mulher, Orroy: mandioca, Itamanin: farinha, Querrem: porco ou leitão, Emon: irmão, jaboty ou kágado é Uoy. Rapcorroy: dança ou dançar, Motto ou mata (floresta): Ramanin. Doente ou doença: Ramican,casa: Barricou.
É só o que tenho conseguido compreender até hoje.
Estão satisfeito commigo, porque os tenho tratado bem. Dando-lhes o que comer, tendo vestido a todos. Hontem a noite os levei ao ensaio carnavalesco, de que elles gostaram bastante. De falha hoje aqui, voltarei com eles para a minha fazenda e dalli os mandarei levar ao Posto Indígena.”

A foto mostrada são de esculturas de Botocudos retratados na cerâmica pelo artista e descendente indígena Gilvandro.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ainda os índios....



Pois bem...
Estava eu sentada na santa paz da minha sala de aula no mestrado... Eis que o professor começou a falar e mostrar imagens sobre a Bahia. Então apareceu uma imagem de três índios bem trajados, calçados e em posição pronta para a foto. Embaixo estava escrito: últimos de sua raça que se localizava no sul da Bahia - detalhe todos homens, nenhuma índia para ajudar na procriação...
Não tive tempo de debater a imagem na sala, mas voltei pra casa mais atormentada do que o normal...
Diante de todos os cenários que apareciam na minha cabeça eu resolvi perguntar para quem quisesse me responder: O QUE É MESTIÇAGEM?
Em Conquista os índios sumiram só ficaram os mestiços... suas "raças" beberam cachaça envenenada e morreram embriagados...

Falando em índio...



Eis que o índio desceu da estrela...
A imagem que fazemos hoje dos povos indígenas está relacionada com os índios Tupy e Guarany. Só para refrescar a memória, os Tupy - Guarany foram os nativos que melhor se adaptaram à civilização imposta pelos descobridores. Esses índios "bravamente" deram seu sangue para que a nação pudesse florescer. Mortos, foram retratados em telas, e romances a la Alencar. Na verdade esses eram os índios bons, pois estavam MORTOS...
Contra os bons Tupy e Gurany estavam os índios do sertão... os temidos E VIVOS Tapuia, Botocudo, Bugre ou bárbaro...
Eis que Conquista abrigava os Tapuya bárbaros. Assim, eles não serviriam para representar a nascente civilização que hoje respira as auroras da modernidade...
Mortos, foram esquecidos... Mortos aqui quer dizer que sumiram da memória da cidade.
Porque não seria estranho se uma hora dessas um Tapuya bárbaro descesse mesmo de uma estrela...

No tempo da conquista de Conquista

Cadê o índio de Conquista? Interrogou-me algum conquistense...
Eu disse: talvez ele esteja no seu sangue...
De sobressalto respondeu-me a tal figura...
O que? impossível... sou descendente das primeiras famílias que tem raízes em João Gonçalves...
Ahhh... eu disse... então tens descendência em escravos....
Horrorizada a figura fulminou-me com um olhar abrasador...
Impossível, João Gonçalves era nobre...
Nobre, claro, (eu disse)mas era escravo forro...
Nobre porque se intitulou assim entre escravos e índios e como a clavina pertencia a ele, revogou o status de "sinhô"
O que é clavina? Me perguntou o conquistense...
Diante disto, respirei profundamente, mirei meu caminho e tomei meu destino sem olhar o que ficava...
Fui embora pensando... pensando...
O que Conquista é hoje?